Baseado na peça espanhola Los
vecinos de arriba, de Cesc Gay, o filme leva a história para um apartamento
em São Francisco. Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) recebem a visita dos
novos vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), um casal que vive
sua sexualidade com uma liberdade que fascina e desconcerta os anfitriões. O
convite para uma troca de casais funciona como o estopim de uma conversa que
vai muito além do sexo.
Porque o verdadeiro problema de Angela e Joe não é a ausência de uma aventura sexual. É a ausência de desejo. O casamento se tornou rotina, o cansaço tomou conta da vida cotidiana e antigos sonhos foram abandonados pelo caminho. Joe chega em casa depois de trabalhar como professor em uma escola de música medíocre, carregando dores nas costas e a sensação de ter deixado para trás aquilo que um dia imaginou para si. Angela, enquanto isso, tenta criar alguma faísca em uma relação que parece ter esquecido como se manter viva. É justamente aí que O Convite triunfa e se distancia de uma comédia sexual convencional.
A sexualidade não aparece como
espetáculo ou como simples provocação. Ela funciona como uma lente através da
qual Wilde observa a intimidade de pessoas adultas que já passaram dos
quarenta, acumulando frustrações, responsabilidades, insônia, dores físicas e
sonhos interrompidos. O filme entende que desejar outra pessoa pode ser muito
menos importante do que voltar a desejar a própria vida. E inesperadamente há
humor nisso, muito humor!
Wilde percebe que as situações
são engraçadas não porque seus personagens sejam caricaturas, mas porque são
pessoas profundamente humanas tentando manter a compostura enquanto falam sobre
coisas que normalmente prefeririam esconder. A vergonha, o ciúme, a curiosidade
e o constrangimento tornam-se fontes de comédia justamente porque parecem
verdadeiros.
Penélope Cruz e Edward Norton funcionam como agentes de desestabilização desse casamento adormecido. Piña e Hawk representam uma possibilidade de existência que Angela e Joe observam com uma mistura de fascínio e inveja. Eles parecem ter aquilo que os protagonistas perderam: liberdade para falar sobre sexo, disposição para experimentar e, principalmente, a coragem de não fingir que o desejo deixou de existir.
A cena de Cruz ao som de “By
Your Side”, da Sade talvez seja o melhor exemplo dessa liberdade. Há algo
deliberadamente exagerado na personagem, mas o filme nunca perde de vista o
motivo pelo qual ela é tão perturbadora para o casal protagonista: Piña e Hawk
não parecem envergonhados por aquilo que desejam. Angela e Joe, sim.
Nesse aspecto, O Convite
também representa uma evolução interessante para Olivia Wilde. Depois do
problemático e artificial Não Se Preocupe, Querida (2002), a diretora
reencontra a vitalidade com que dirigiu seu primeiro longa metragem, o ótimo Fora
de Série (2019), mas agora aplicando isso aos personagens adultos, desencantados
e emocionalmente mais complexos. Wilde parece confiar mais nos excelentes
atores com quem trabalha e nos diálogos afiadíssimos de McCormack e Jones ,
permitindo que a própria situação produza humor e desconforto em vez de tentar
transformar cada momento em espetáculo. E sua atuação como Angela é parte
fundamental desse acerto.
Wilde interpreta uma mulher que
precisa equilibrar desejo, frustração, humor e vulnerabilidade sem jamais
parecer completamente segura de si. Grande parte da força da performance está
nos pequenos momentos, naquilo que acontece entre uma fala e outra. Como na “cena
do suflê”, ela dura milésimos de segundos, mas Olivia Wilde consegue
transformar aquele instante em um dos momentos mais emblemáticos da obra. Sua
reação é quase que um acidente cômico e ainda assim, absolutamente preciso. E
como bem observou Isabela Boscov, minha maior referência no que diz respeito a
críticos de cinema, aqueles poucos segundos seriam suficientes dar um Oscar pra
Wilde.
Talvez seja por isso que a
recepção ao filme tenha crescido tanto nas últimas semanas, após ser
disponibilizado nas plataformas digitais. O Convite rapidamente virou um
hit no X, ou, como gosto de chamar, “Xuiter”, aparecendo entre os
assuntos mais comentados da rede e produzindo uma torcida cada vez maior por
uma dupla indicação para Olivia Wilde, como atriz e diretora ao Oscar no ano
que vem. E, principalmente, uma torcida para que ela seja reconhecida como
atriz. Quanto a isso trago ressalvas, pois estou bem animado com o fato de
Julianne Moore ser uma das maiores apostas ao prêmio, pelo filme The Debut,
sem nem ao menos ter assistido ao filme.
Há ainda um fenômeno curioso: não
são poucos os espectadores que passaram a defender que O Convite é
melhor do que A Odisseia, tratada por muita gente como a grande estreia
do ano. A comparação é quase absurda em termos de escala, mas diz bastante
sobre o impacto que o filme está causando. Enquanto um aposta na grandiosidade
épica, Wilde encontra sua força em algo muito menor e, talvez por isso mesmo,
muito mais próximo de nós: quatro adultos tentando descobrir se ainda existe
desejo suficiente para continuar juntos.
O Convite não é realmente
um filme sobre troca de casais. É sobre o que acontece quando o desejo
desaparece, quando a rotina se instala e quando duas pessoas percebem que
passaram anos tentando sobreviver à vida adulta sem perceber que também estavam
deixando de viver. O sexo apenas abre a porta. E o que Wilde encontra do outro
lado é casamento, frustração, humor, envelhecimento, intimidade e, sobretudo, a
possibilidade de voltar a se sentir viva.
Enquanto diretora e atriz, Wilde
provou que está vivíssima. E a gente torceu tanto para que sua personagem se
sentisse assim durante os 90 minutos de exibição desse filmaço, que não é
brincadeira!
Nota: 10.0/10.0
Por: Felipe Tavares























