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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CRÍTICA | O Convite (2026): um retrato hilário e desconcertante sobre sexo, casamento e o desejo de voltar a se sentir vivo

Quatro personagens, um apartamento e uma proposta sexual que rapidamente transforma uma noite entre vizinhos em uma explosão de fantasias, frustrações e verdades escondidas. O Convite, terceiro longa-metragem dirigido por Olivia Wilde, poderia facilmente se limitar à provocação de uma comédia sobre troca de casais. Mas Wilde, ao lado dos roteiristas Will McCormack e Rashida Jones, encontra algo muito mais interessante: uma reflexão sobre a sexualidade adulta, o desgaste do casamento e a maneira como a rotina pode transformar o desejo em uma lembrança distante.

Baseado na peça espanhola Los vecinos de arriba, de Cesc Gay, o filme leva a história para um apartamento em São Francisco. Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) recebem a visita dos novos vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), um casal que vive sua sexualidade com uma liberdade que fascina e desconcerta os anfitriões. O convite para uma troca de casais funciona como o estopim de uma conversa que vai muito além do sexo.

Porque o verdadeiro problema de Angela e Joe não é a ausência de uma aventura sexual. É a ausência de desejo. O casamento se tornou rotina, o cansaço tomou conta da vida cotidiana e antigos sonhos foram abandonados pelo caminho. Joe chega em casa depois de trabalhar como professor em uma escola de música medíocre, carregando dores nas costas e a sensação de ter deixado para trás aquilo que um dia imaginou para si. Angela, enquanto isso, tenta criar alguma faísca em uma relação que parece ter esquecido como se manter viva. É justamente aí que O Convite triunfa e se distancia de uma comédia sexual convencional.

A sexualidade não aparece como espetáculo ou como simples provocação. Ela funciona como uma lente através da qual Wilde observa a intimidade de pessoas adultas que já passaram dos quarenta, acumulando frustrações, responsabilidades, insônia, dores físicas e sonhos interrompidos. O filme entende que desejar outra pessoa pode ser muito menos importante do que voltar a desejar a própria vida. E inesperadamente há humor nisso, muito humor!

Wilde percebe que as situações são engraçadas não porque seus personagens sejam caricaturas, mas porque são pessoas profundamente humanas tentando manter a compostura enquanto falam sobre coisas que normalmente prefeririam esconder. A vergonha, o ciúme, a curiosidade e o constrangimento tornam-se fontes de comédia justamente porque parecem verdadeiros.

Penélope Cruz e Edward Norton funcionam como agentes de desestabilização desse casamento adormecido. Piña e Hawk representam uma possibilidade de existência que Angela e Joe observam com uma mistura de fascínio e inveja. Eles parecem ter aquilo que os protagonistas perderam: liberdade para falar sobre sexo, disposição para experimentar e, principalmente, a coragem de não fingir que o desejo deixou de existir.

A cena de Cruz ao som de “By Your Side”, da Sade talvez seja o melhor exemplo dessa liberdade. Há algo deliberadamente exagerado na personagem, mas o filme nunca perde de vista o motivo pelo qual ela é tão perturbadora para o casal protagonista: Piña e Hawk não parecem envergonhados por aquilo que desejam. Angela e Joe, sim.

Nesse aspecto, O Convite também representa uma evolução interessante para Olivia Wilde. Depois do problemático e artificial Não Se Preocupe, Querida (2002), a diretora reencontra a vitalidade com que dirigiu seu primeiro longa metragem, o ótimo Fora de Série (2019), mas agora aplicando isso aos personagens adultos, desencantados e emocionalmente mais complexos. Wilde parece confiar mais nos excelentes atores com quem trabalha e nos diálogos afiadíssimos de McCormack e Jones , permitindo que a própria situação produza humor e desconforto em vez de tentar transformar cada momento em espetáculo. E sua atuação como Angela é parte fundamental desse acerto.

Wilde interpreta uma mulher que precisa equilibrar desejo, frustração, humor e vulnerabilidade sem jamais parecer completamente segura de si. Grande parte da força da performance está nos pequenos momentos, naquilo que acontece entre uma fala e outra. Como na “cena do suflê”, ela dura milésimos de segundos, mas Olivia Wilde consegue transformar aquele instante em um dos momentos mais emblemáticos da obra. Sua reação é quase que um acidente cômico e ainda assim, absolutamente preciso. E como bem observou Isabela Boscov, minha maior referência no que diz respeito a críticos de cinema, aqueles poucos segundos seriam suficientes dar um Oscar pra Wilde.

Talvez seja por isso que a recepção ao filme tenha crescido tanto nas últimas semanas, após ser disponibilizado nas plataformas digitais. O Convite rapidamente virou um hit no X, ou, como gosto de chamar, “Xuiter”, aparecendo entre os assuntos mais comentados da rede e produzindo uma torcida cada vez maior por uma dupla indicação para Olivia Wilde, como atriz e diretora ao Oscar no ano que vem. E, principalmente, uma torcida para que ela seja reconhecida como atriz. Quanto a isso trago ressalvas, pois estou bem animado com o fato de Julianne Moore ser uma das maiores apostas ao prêmio, pelo filme The Debut, sem nem ao menos ter assistido ao filme.

Há ainda um fenômeno curioso: não são poucos os espectadores que passaram a defender que O Convite é melhor do que A Odisseia, tratada por muita gente como a grande estreia do ano. A comparação é quase absurda em termos de escala, mas diz bastante sobre o impacto que o filme está causando. Enquanto um aposta na grandiosidade épica, Wilde encontra sua força em algo muito menor e, talvez por isso mesmo, muito mais próximo de nós: quatro adultos tentando descobrir se ainda existe desejo suficiente para continuar juntos.

O Convite não é realmente um filme sobre troca de casais. É sobre o que acontece quando o desejo desaparece, quando a rotina se instala e quando duas pessoas percebem que passaram anos tentando sobreviver à vida adulta sem perceber que também estavam deixando de viver. O sexo apenas abre a porta. E o que Wilde encontra do outro lado é casamento, frustração, humor, envelhecimento, intimidade e, sobretudo, a possibilidade de voltar a se sentir viva.

Enquanto diretora e atriz, Wilde provou que está vivíssima. E a gente torceu tanto para que sua personagem se sentisse assim durante os 90 minutos de exibição desse filmaço, que não é brincadeira!

Nota: 10.0/10.0

Por: Felipe Tavares

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X08: The Treasons at Tumbleton (SEASON FINALE)

 * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

Imagem: HBO

Depois de uma segunda temporada frustrante, que deixou a sensação de que a guerra avançava devagar demais, House of the Dragon voltou com excelentes primeiros episódios, batalhas épicas e atuações dignas de Emmy! Derrapou a partir do episódio quatro, mas recuperou a força na season finale com um gancho extremamente potente e deixando claro ao público porque essa história é tão emblemática e fascinante.

Durante boa parte da temporada, a “Dança dos Dragões” funcionou como uma espécie de guerra fria. Os dois lados possuem armas capazes de mudar o curso do conflito em questão de minutos, mas justamente por isso ninguém se atreve a utilizá-las plenamente. Rhaenyra tem vários dragões sob seu controle, enquanto seus inimigos permanecem calculando cada movimento por medo das consequências. O resultado foi uma história em que, durante episódios demais, os personagens pareciam simplesmente esperar que a guerra começasse de verdade. E felizmente esse episódio oito rompe definitivamente com essa dinâmica.

Antes de chegarmos a Tumbleton, a série encerra alguns dos conflitos que vinha construindo. Rhaenyra passa por sua transformação definitiva. A mulher que, durante boa parte da história, tentou se apresentar como uma alternativa legítima, diante da brutalidade de seus inimigos, começa a adotar métodos cada vez mais extremos. Cansada da recusa do Alta Septão em reconhecê-la como rainha, ordena que Alyn de Hull o mate e depois se apresenta diante dos habitantes de Porto Real para reafirmar sua legitimidade e sua convicção de estar ligada à profecia de Aegon.

É um momento importante porque Rhaenyra já não parece simplesmente uma mulher tentando recuperar aquilo que considera seu. Aos poucos, ela está se tornando outro tipo de governante: alguém convencida de que seu destino justifica decisões que, em outras circunstâncias, jamais teria tomado.

A relação com Helaena, uma das personagens mais queridas dessa “season”, representa talvez o ponto mais trágico dessa transformação. Depois de ser afastada do conselho de Rhaenyra, Mysaria tem um último encontro com Helaena e fala pra ela algo que ninguém havia ousado dizer até então: Rhaenyra jamais a deixará partir. A antiga rainha, agora prisioneira, deixa de comer, e Rhaenyra responde ordenando que seja alimentada à força. A crueldade da situação destrói definitivamente qualquer possibilidade de reconciliação entre as duas. Helaena então se joga pela janela.

Mas mesmo em sua morte, a série mantém a dimensão profética que acompanha a personagem. Antes de morrer, Helaena tece uma última tapeçaria inspirada em seus sonhos. Quando Rhaenyra encontra o corpo, descobre nela uma imagem perturbadora: Helaena caindo no vazio e a própria Rhaenyra sentada no Trono de Ferro, cercada pelo fogo dos dragões. É uma das melhores imagens de todo o episódio porque funciona simultaneamente como tragédia e presságio. Rhaenyra pode continuar acreditando que está cumprindo um destino, mas cada passo em direção ao Trono parece também aproximá-la de sua própria destruição. 

E então somos apresentados às sequências de Tumbleton. Depois de vários episódios preparando o confronto, a série finalmente entrega a batalha que vinha prometendo há tanto tempo. O exército de Daemon, reforçado pelas forças dos Riverlands e dos Winter Wolves, avança contra as tropas de Ormund Hightower. A defesa da cidade é brutal: óleo fervente, soldados desesperados e até crianças utilizadas como escudos humanos. Mas a verdadeira ameaça não está apenas no exército inimigo. Está nos próprios dragões.

Um dos exemplos é quando, Ulf, depois de ser humilhado e repreendido por Ormund, decidiu dar um basta na situação e agir tomado pela fúria. Em vez de simplesmente atacar o inimigo, usa seu dragão para incendiar tudo o que encontra pelo caminho, sem distinguir aliados de adversários. A situação rapidamente se transforma em um massacre. Esse plot evidencia uma das ideias mais importantes dessa guerra: controlar um dragão não significa necessariamente controlar aquele que o monta.

A batalha deixa cadáveres, famílias destruídas e um equilíbrio de poder completamente diferente. Hugh, the Hammer encontra sua esposa Kat morta entre os escombros, enquanto Daemon contempla as consequências de uma guerra que, até aquele momento, podia parecer calculada e distante demais. O pesadelo de Rhaenyra sobre os milhares de inocentes que morreriam em Tumbleton acaba se tornando realidade.

E a série não se afasta das consequências humanas da batalha. Daemon observa mães carregando os corpos de seus filhos mortos e fica momentaneamente preso naquela névoa de guerra. É um daqueles momentos em que HOTD se lembra de que, por trás dos dragões, dos exércitos e da disputa pelo Trono de Ferro, existem pessoas que simplesmente estão perdendo tudo.

Enquanto isso, o retorno de Aegon II e Sunfyre acrescenta outra peça fundamental ao tabuleiro. Seu reencontro com Aemond se transforma em um dos momentos mais aguardados da temporada e devolve ao personagem uma energia que havia desaparecido durante boa parte da história. A jornada de Aegon por Westeros foi, aliás, um dos elementos que mais se aproximaram do espírito de Game of Thrones: um personagem derrotado, vulnerável e praticamente transformado em fugitivo que, apesar de tudo, consegue retornar ao centro do conflito.

Com Tumbleton, House of the Dragon abandona definitivamente a sensação de que a Dança dos Dragões é uma guerra fria. A guerra agora não pode mais ser interrompida. Rhaenyra perde parte de sua vantagem, seus inimigos recuperam força e os mortos começam a se acumular em uma velocidade assustadora.

Isso não significa que a terceira temporada seja perfeita, pelo contrário. Seu principal problema continua sendo o ritmo. Depois de vários acontecimentos importantes no início, a história voltou a ficar estagnada durante tempo demais. Em muitas sequências, a impressão que dava é que os personagens pareciam esperar que a trama voltasse a se movimentar, quase sempre sem êxito. Mas o final consegue compensar boa parte disso. A temporada começa e termina com grandes confrontos, e Tumbleton se transforma no verdadeiro ponto de virada. Se a segunda temporada terminou deixando a impressão de que a série havia perdido o rumo, a terceira consegue encerrar com uma promessa muito mais clara: agora, sim, estamos entrando na fase final da Dança dos Dragões.

A última sequência resume perfeitamente essa sensação. Rhaenyra contempla a tapeçaria de Helaena, vê a imagem da antiga rainha caindo para a morte e então fecha a janela. É um gesto simples, mas funciona como uma declaração de intenções. Rhaenyra parece finalmente aceitar que não há mais volta. A quarta temporada também será a última. E essa é, provavelmente, a melhor notícia para uma história que durante tempo demais pareceu andar em círculos. A partir de agora, cada episódio precisa nos aproximar cada vez mais do desfecho. Vamos aguardar e torcer para que seja satisfatório.

Nota: 9.0/10.0

Média da Temporada: 8.6/10.0

Por: Felipe Tavares

Pra encerrar, eu gostaria de dedicar essas oito resenhas a alguém que me encorajou a escrevê-las e que acompanhou uma boa parte dos episódios de House of The Dragon comigo, e que de certa forma, enriqueceu a minha experiência, como espectador, pela ótima companhia. Por questões que fogem do nosso controle, ele não pôde terminar essa temporada (difícil, arrastada, redundante e lenta) do meu lado. Mas o saldo final de tudo isso ainda é positivo. Obrigado Nicholas, por ser a primeira pessoa que se interessou em ler esse blog e por me incentivar a continuar escrevendo! Isso significou muito pra mim.

Crítica | House of the Dragon – 3X07: The Dragon in Winter

 * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

Depois de vários episódios em que House of The Dragon parecia avançar em um ritmo lento demais, quase parando, o penúltimo episódio chega para lembrar que, cedo ou tarde, em Westeros, as intrigas precisam se transformar em acontecimentos. E quando os dragões voltam a ocupar o centro do "palco", a série demonstra mais uma vez porque, visualmente, é imbatível e muito acima da média. Confesso que eu estava desanimado e particularmente frustrados pelos rumos que os roteiristas tomaram nos últimos 4 episódios, o que tornou a série bastante lenta e devagar. Tanto é que essa resenha está uma semana atrasada!

Nos últimos episódios, a HBO apostou fortemente nas conversas políticas, nas tensões familiares e nas intrigas do reino. Esse tipo de construção é necessário em uma história como esta, já que as grandes batalhas geralmente só funcionam quando a narrativa constrói, aos poucos, as condições para que elas aconteçam, por meio de subtramas e diálogos expositivos que evidenciam as alianças, rivalidades e traições da trama. O problema é que a terceira temporada levou essa paciência longe demais. Cenários, conflitos e conversas foram repetidos tantas vezes que muitos personagens não avançaram quase nada na série.

Imagem: HBO

Por isso, o sétimo episódio representa uma pequena mudança de direção. A ação volta a ter um peso considerável e várias histórias que estavam, até então adormecidas, começaram a aparecer. A política não é abandonada, pelo contrário, o episódio demonstra que as decisões tomadas nos bastidores começam a produzir consequências cada vez mais visíveis.

E é aí que surge um dos grandes temas de House of the Dragon, que é retratar a família como um grande e implacável campo de batalha. As lealdades continuam frágeis e os laços de sangue, em vez de garantirem confiança, muitas vezes se transformam em uma ameaça. A guerra não é travada apenas entre exércitos, ela também acontece dentro das próprias famílias.

Se há algo que funciona especialmente bem neste episódio é a presença dos dragões. Ainda bem que eles voltaram com tudo! A série vinha preparando esse momento há algum tempo e, finalmente, o espetáculo visual volta a ter um peso real dentro da narrativa. As interações entre essas criaturas não funcionam apenas como uma demonstração do excelente trabalho de efeitos visuais liderado pelo time de Daði Einarsson, mas também como um excelente recurso narrativo que enriquece a trama. Eles continuam profundamente ligados aos seus “montadores”, evidenciando às relações de poder e à identidade das famílias que os controlam. Por isso, algumas das cenas mais impactantes do episódio extrapola para uma dimensão emocional fantástica.

Imagem: HBO

O principal problema, entretanto, não desaparece. Continua sendo o ritmo! A série insiste em priorizar tramas que parecem existir mais para ganhar tempo do que para realmente fazer a história avançar. Harrenhal é provavelmente o exemplo mais evidente (e cara, como eu odeio esse núcleo). A permanência de Aemond no castelo até tem uns elementos razoavelmente interessantes, mas começa a ser frustrante a lentidão com que essa história se desenvolve. Visões, conversas e situações que lembram demais o que já vimos anteriormente, criam a sensação de que estamos diante de uma trama esperando o momento adequado para se conectar ao restante da história.

Algo parecido acontece também no núcleo de Porto Real. Rhaenyra está em uma posição cada vez mais complicada, mas seu conflito político nem sempre recebe o desenvolvimento que merece.  Além disso, a personagem continua dependendo demais daqueles que estão ao seu redor. Daemon, Mysaria e agora também Helaena, exercem influência considerável sobre suas decisões, enquanto a rainha parece dedicar boa parte de seus esforços a buscar respostas nas visões dos outros. Isso chama ainda mais atenção porque, apesar da legitimidade de sua reivindicação, ainda é difícil enxergá-la como uma governante capaz de impor sua própria vontade.

Imagem: HBO

Em meio a esse cenário, a história de Helaena em Porto Real começa a ganhar força. Desde a cena, do segundo episódio, em que ela fala do seu sonho de criar galinhas, eu adquiri um apreço genuíno por ela e fico satisfeito de ver o destaque e a importância que ela tem ganhado na temporada. O plot da Helaena confere algo diferente do habitual confronto pelo poder. Suas visões, sua maneira particular de perceber os acontecimento e de enxergar o mundo, despertaram em mim uma curiosidade que outras histórias da temporada não conseguiram .O que exatamente são suas visões? Até onde pode chegar sua influência? Ela deixará de ser essa personagem aparentemente inocente? E o que acontecerá com seus filhos? São perguntas que, por enquanto, funcionam justamente porque a série não oferece todas as respostas.

Também é um ponto super positivo perceber que Rhaenyra e Daemon finalmente começam a sair do limbo narrativo em que pareciam estar presos. A relação entre os dois continua sendo uma das mais complexas e interessantes da série, mas durante boa parte da temporada ambos pareciam avançar sem saber exatamente qual era sua posição dentro da guerra e do próprio reinado. O episódio começa a definir melhor suas intenções e, embora ainda exista um longo caminho pela frente, finalmente se percebe uma direção mais clara.

E aqui está a grande contradição deste sétimo episódio: provavelmente é um dos capítulos que melhor conseguem recuperar o dinamismo da temporada, mas também deixa ainda mais evidente o problema dos episódios anteriores. Durante tempo demais, House of The Dragon ficou girando em torno das mesmas localidades e de conflitos que pouco avançavam. Harrenhal se transformou em um pântano narrativo; Porto Real continua sem alcançar todo o seu potencial, e algumas histórias parecem ter sido esticadas além do necessário.

Imagem: HBO

Ainda assim, o episódio recupera algo fundamental: a sensação de que tudo está prestes a explodir. O grande mérito desse sétimo episódio, portanto, não está apenas em suas cenas espetaculares, mas em conseguir fazer com que a expectativa volte a existir. Depois de uma temporada lenta e irregular, HOTD volta a transmitir a sensação de que algo importante está prestes a acontecer.

Nota: 8.4/10.0

Por: Felipe Tavares


terça-feira, 28 de julho de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X06: Faceless Men

  * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

E quando a guerra deixa de pertencer aos homens...?

Existe uma mudança silenciosa acontecendo na terceira temporada de House of the Dragon. Durante boa parte da série, a Dança dos Dragões foi apresentada como um conflito movido pelas escolhas de pessoas poderosas, como reis, rainhas, cavaleiros e lordes, que antes eram capazes de alterar o rumo da história através da própria vontade. O sexto episódio, entretanto, propõe uma leitura diferente. Pela primeira vez, a sensação dominante não é a de que os personagens conduzem a guerra, mas de que a guerra passou a conduzir os personagens.

É uma inversão sutil, mas decisiva. Quase todos os núcleos do capítulo giram em torno de figuras que descobrem, cedo ou tarde, que perderam o controle sobre a própria trajetória. Uns ainda insistem em lutar contra esse destino; outros simplesmente aprendem a sobreviver dentro dele. Esse talvez seja o maior mérito do episódio: encontrar um eixo temático capaz de unir histórias aparentemente desconectadas.

Imagem: HBO

Ao mesmo tempo, porém, o capítulo também escancara um problema que acompanha toda a temporada. A série continua super competente na construção de atmosfera, personagens e tensão política, mas demonstra dificuldade para transformar grandes acontecimentos em experiências emocionalmente devastadoras. E nenhuma cena simboliza melhor essa contradição do que a despedida de Sir Criston Cole.

Desde sua primeira aparição na série, Criston ocupou um lugar curioso dentro da narrativa. Durante muito tempo foi reduzido ao papel de antagonista impulsivo, movido pelo ressentimento e pela devoção cega à trupe da Alicent. Aos poucos, porém, a terceira temporada começou a desmontar essa imagem. Depois das derrotas sucessivas e da escalada da guerra, o personagem finalmente passou a enxergar aquilo que o público já percebia havia algum tempo: sua importância diminuía na mesma proporção em que os dragões assumiam o protagonismo do conflito.

As conversas com Gwayne Hightower nos episódios anteriores revelavam um homem profundamente cansado. Não apenas da guerra, mas do papel que desempenhou durante toda a vida. Criston compreende que sempre foi uma ferramenta utilizada por pessoas muito mais poderosas do que ele. Seus juramentos, sua lealdade e sua reputação serviram aos interesses da nobreza enquanto foram convenientes. Agora, diante de um conflito dominado por monstros capazes de destruir exércitos inteiros em poucos minutos, o maior guerreiro dos Sete Reinos descobre que sua habilidade pouco significa.

A morte de Criston Cole também preserva aquilo que sempre o definiu: sua recusa em aceitar passivamente o próprio destino. Antes de cair sob uma chuva de flechas, ele ainda tenta negociar pela vida de seus soldados. Quando percebe que não há acordo possível, escolhe morrer lutando. O problema começa logo depois...

Em menos de dez minutos, House of the Dragon elimina um personagem presente desde o primeiro episódio da série e simplesmente segue adiante como se nada tivesse acontecido. Alicent não reage. Gwayne não reage. Aegon não reage. Nem mesmo o episódio parece interessado em refletir sobre a ausência daquele que durante anos ocupou posição central dentro do conflito. Essa talvez seja a decisão mais frustrante do capítulo.

Imagem: HBO

Não porque Criston Cole merecesse uma morte heroica, já que sua trajetória jamais nos levou para essa direção, mas porque a série vinha preparando cuidadosamente esse encerramento. Seus diálogos recentes revelavam um homem que finalmente compreendia o vazio produzido por décadas de obediência. Quando afirma desejar morrer "a serviço de si mesmo", Criston encontra uma humanidade que durante muito tempo permaneceu escondida sob sua arrogância. Ao ignorar completamente as consequências emocionais dessa perda, o roteiro enfraquece justamente aquilo que havia construído com tanta eficiência.

A impressão que fica é que House of the Dragon continua tratando alguns acontecimentos como simples pontos de passagem entre uma grande batalha e outra. A morte de Criston representa um marco importante dentro da Dança dos Dragões, mas recebe menos atenção do que diversas conversas políticas espalhadas pelo restante do episódio. É curioso porque, tecnicamente, a sequência funciona muito bem. Dramaticamente, porém, ela termina antes de produzir todas as consequências que poderia gerar.Esse mesmo sentimento acompanha praticamente todo o restante do capítulo.

Imagem: HBO

Após conquistar Porto Real, Rhaenyra imaginava que finalmente teria condições de exercer o poder pelo qual lutou durante tantos anos. Em vez disso, encontra um reino economicamente destruído. A guerra deixa de existir apenas nos campos de batalha e invade a administração cotidiana. Faltam recursos, aumenta a criminalidade, cresce a insatisfação popular e o Trono de Ferro volta a ferir fisicamente a mulher que sempre acreditou ser sua legítima ocupante.

Mais interessante ainda é perceber como essa transformação acontece sem que Rhaenyra praticamente perceba. Ao longo do episódio, suas decisões tornam-se cada vez mais pragmáticas. Assassinatos passam a ser considerados alternativas políticas aceitáveis. Alicent deixa de ser apenas uma antiga amiga para transformar-se em uma possível peça de espionagem. A preocupação com princípios morais cede espaço à necessidade de vencer uma guerra que parece escapar diariamente de seu controle. É nesse momento que o tema central do episódio se fortalece. Rhaenyra conquistou o Trono, mas perdeu o controle do reino. Essa perda de controle não pertence apenas a Rhaenyra. Ela atravessa praticamente todos os personagens centrais do episódio e é justamente essa percepção que dá coesão a uma narrativa “aparentemente” fragmentada.

Alicent talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação. Durante duas temporadas ela foi uma das principais agentes da guerra, movendo peças, tomando decisões e tentando preservar sua família. Agora, confinada em Porto Real, torna-se quase uma espectadora da própria história. Sua importância política diminui drasticamente e, pela primeira vez, ela aceita negociar não para conquistar poder, mas simplesmente para preservar aquilo que ainda lhe resta.

Imagem: HBO

Enquanto isso, Harrenhal continua funcionando como um espaço quase sobrenatural dentro da série, o que na minha opinião é de uma chatice sem tamanho e compromete o ritmo do episódio. Se Porto Real representa o desgaste do poder político, Harrenhal simboliza o poder do destino. Nada ali parece acontecer de maneira completamente racional. A aproximação entre Aemond e Alys Rivers reforça exatamente essa atmosfera. Mais do que um romance, o relacionamento dos dois parece guiado por forças antigas que ultrapassam a própria guerra. E eu não poderia me importar menos...

O episódio também dedica tempo significativo aos Hightower. A relação entre Ormund e Daeron revela duas formas distintas de enxergar o poder. Ormund compreende a guerra como uma disputa de símbolos e percebe que Daeron pode servir como bandeira capaz de mobilizar parte de Westeros. Já Daeron demonstra enorme desconforto diante dessa responsabilidade. Sua confissão de que jamais desejou ser rei funciona como um raro momento de vulnerabilidade em meio a uma temporada dominada por personagens convencidos de que nasceram para governar.

Imagem: HBO

Faltando apenas dois episódios para o encerramento da temporada, House of the Dragon continua abrindo novas linhas narrativas em vez de concentrar seus esforços naquelas que já vinham sendo desenvolvidas. Existe uma sensação permanente de preparação. Quase todas as cenas parecem anunciar acontecimentos futuros em vez de extrair consequências daqueles que acabaram de ocorrer.

Essa característica acompanha boa parte da terceira temporada. Depois do terceiro episódio, a série reduziu significativamente o ritmo dos acontecimentos para privilegiar conversas políticas, reposicionamentos estratégicos e mudanças graduais nas relações entre os personagens. Em teoria, trata-se de uma escolha coerente com a proposta de uma guerra longa e desgastante. Na prática, porém, ela produz um efeito colateral importante: diversos acontecimentos deixam de possuir o impacto emocional que mereciam porque o roteiro parece imediatamente interessado em preparar o próximo movimento do tabuleiro.A morte de Criston Cole permanece como o exemplo mais evidente desse problema.

Tecnicamente, entretanto, é difícil encontrar grandes defeitos na produção do episódio. A direção de Loni Peristere demonstrou um controle e um domínio absurdo da narrativa. A fotografia continua sendo um dos maiores trunfos da série, a trilha sonora abandona temas grandiosos e de forma acertada aposta em temas mais melancólicos, mostrando uma compreensão louvável de que a história já não é mais focado nas conquistas, mas sim nas perdas. A montagem também merece destaque, mesmo com problemas na estrutura narrativa, a costura e a construção permanecem extremamente eficientes.

Acima de tudo, gostaria de destacar as atuações dessa temporada. O elenco entregando um trabalho de altíssimo nível. Emma D'Arcy demonstra com precisão a lenta deterioração moral de Rhaenyra, cuja autoridade cresce enquanto sua humanidade parece diminuir. Olivia Cooke constrói sua Alicent quase sempre através do olhar, transmitindo culpa, impotência e resignação sem necessidade de grandes discursos. Tom Glynn-Carney talvez continue sendo a maior surpresa da temporada ao transformar Aegon II em um personagem muito mais complexo do que parecia nas temporadas anteriores. Já Fabien Frankel encerra sua trajetória oferecendo aquela que provavelmente é sua melhor atuação na série, tornando Criston Cole muito mais trágico do que heroico.

Imagem: HBO

No fim das contas, o sexto episódio resume perfeitamente as qualidades e os defeitos da terceira temporada de House of the Dragon. Poucas séries da televisão contemporânea conseguem combinar direção, fotografia, trilha sonora, direção de arte e atuações com tamanha competência. Ao mesmo tempo, poucas parecem tão relutantes em permitir que seus momentos mais importantes permaneçam tempo suficiente na tela para produzir todo o seu potencial impacto emocional.

Mais do que um episódio sobre batalhas ou conspirações, este é um capítulo sobre personagens que descobrem, cada um à sua maneira, que já não controlam o próprio destino. Criston aceita morrer em uma guerra que deixou de pertencer aos homens. Rhaenyra percebe que conquistar um trono não significa conseguir governá-lo. Alicent compreende que sua influência desapareceu junto com sua liberdade, enquanto Aemond deposita seu futuro nas mãos de forças que sequer consegue compreender.

É justamente essa ideia que transforma o episódio em algo maior do que a soma de seus acontecimentos. Pela primeira vez nesta temporada, a narrativa deixa de parecer apenas uma disputa entre dois lados e passa a assumir a forma de uma engrenagem histórica impossível de deter. Todos ainda acreditam estar fazendo escolhas. O episódio, porém, sugere algo muito mais inquietante: talvez a guerra já tenha escolhido o destino de todos eles há muito tempo!

Nota: 7.9/10.0

Por: Felipe Tavares

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X05: Unbowed and Unbent

  * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

Já chegamos em mais da metade da terceira temporada de House of the Dragon e a sensação é inevitável: a série voltou a cometer o mesmo erro que comprometeu parte da temporada anterior. Depois de um início excelente, marcado por episódios intensos, decisões importantes e conflitos que pareciam finalmente impulsionar a Dança dos Dragões, a narrativa perde fôlego justamente no momento em que deveria acelerar.

O quinto episódio reforça a impressão de que a HBO voltou a apostar em uma estratégia de prolongar acontecimentos em vez de desenvolvê-los. Boa parte do tempo é consumida por longas conversas em salas fechadas, deslocamentos lentos e subtramas que parecem girar em círculos, enquanto as grandes batalhas prometidas continuam sendo adiadas.

O maior exemplo disso continua sendo Harrenhal. Depois de dedicar vários episódios à jornada de Daemon naquele cenário, a série repete praticamente a mesma estrutura agora com Aemond. O personagem permanece preso entre visões, pesadelos e os jogos psicológicos de Alys Rivers, afastado da guerra justamente quando deveria exercer papel decisivo no conflito. A sensação é de repetição, não de evolução.

Essa estagnação também afeta outros protagonistas. Aegon II continua vagando por Westeros ao lado de Larys Strong, ainda em busca de um propósito, enquanto Daemon passa boa parte do episódio discutindo problemas administrativos em Porto Real. Em vez de acompanhar personagens tomando decisões capazes de mudar os rumos da guerra, acompanhamos protagonistas reagindo aos acontecimentos quase sempre de forma passiva.

Nem mesmo Rhaenyra escapa desse problema. A série continua explorando as dificuldades enfrentadas por uma mulher no Trono de Ferro, tema coerente com o universo de Westeros, mas que volta a ser tratado de maneira repetitiva. A rainha passa grande parte do episódio tentando administrar crises internas, enfrentando resistência política e percebendo que seu governo desperta cada vez mais desconfiança. O conflito permanece interessante, mas sua evolução me parece insatisfatória.

Outro aspecto que contribui para a sensação de lentidão é a fragmentação da narrativa. Diversas histórias importantes recebem poucos minutos de tela antes de desaparecerem novamente. Personagens relevantes entram e saem do episódio sem que suas trajetórias avancem de forma significativa, enquanto alguns acontecimentos parecem existir apenas para preparar episódios futuros.

Isso não significa que o episódio seja completamente desprovido de qualidades. Algumas conversas funcionam muito bem, especialmente os confrontos verbais envolvendo Larys Strong e Aegon II, além do discurso final de Criston Cole, que praticamente antecipa o destino do personagem. São momentos em que o roteiro recupera a força dramática que marcou o início da temporada.

Ainda assim, falta tensão narrativa. Os dragões, principal símbolo da série, aparecem pouco, os conflitos militares permanecem fora de cena e boa parte da temporada parece ocupada em reposicionar peças no tabuleiro em vez de iniciar a partida.

A frustração aumenta porque os primeiros episódios demonstraram que House of the Dragon era perfeitamente capaz de equilibrar desenvolvimento político, ação e evolução dos personagens. Desde então, porém, a impressão é de que a história anda para trás. Subtramas importantes ficam esquecidas, protagonistas permanecem estagnados e a narrativa parece constantemente adiar os confrontos que o próprio roteiro promete.

Ainda há tempo para recuperar o ritmo. O episódio termina posicionando diferentes forças para os confrontos que se aproximam, e tudo indica que as próximas semanas finalmente entregarão as batalhas aguardadas desde o início da temporada. Mas a margem para novos atrasos ficou pequena. Neste ponto da história, House of the Dragon já não pode depender apenas da promessa de que "o melhor ainda está por vir". O melhor precisa começar a acontecer agora mesmo!

Nota: 7.2/10.0

Por: Felipe Tavares

terça-feira, 14 de julho de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X04: Tumbleton

  * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

O peso da coroa e as contradições da guerra

O quarto episódio da terceira temporada de House of the Dragon marca um ponto de virada na narrativa ao colocar seus personagens diante de escolhas que definirão os rumos da Dança dos Dragões. Mais do que grandes batalhas ou demonstrações de poder, a história concentra suas forças nos conflitos internos de seus protagonistas, mostrando que a guerra pela sucessão é movida tanto por ambição quanto por medo, culpa e ressentimento.

No centro da trama está Rhaenyra Targaryen, que vive o momento mais delicado de seu reinado. Questionada pela origem de seus filhos, pressionada por seus aliados e alvo constante de campanhas para deslegitimar sua autoridade, ela precisa decidir que tipo de rainha pretende ser. O dilema é claro: governar com prudência e responsabilidade ou assumir a imagem de uma soberana implacável, impondo respeito por meio da força. Essa escolha passa a definir não apenas sua liderança, mas também a forma como será lembrada.

Ao mesmo tempo, o relacionamento entre Rhaenyra e Daemon revela uma transformação significativa. A paixão que antes movia os dois parece dar lugar a uma parceria construída pela necessidade política. O casamento deixa de representar um vínculo afetivo e passa a funcionar como uma aliança estratégica entre duas figuras poderosas que compartilham objetivos, mas nem sempre a mesma visão de futuro.

Enquanto isso, o reino sofre as consequências da guerra. A fome, o medo e a instabilidade aumentam, mostrando que o conflito ultrapassou as disputas entre nobres e passou a afetar diretamente a população. Em King's Landing, a campanha para desacreditar Rhaenyra ganha força, enquanto seus aliados enfrentam dificuldades para manter a ordem e administrar um território cada vez mais dividido.

No lado dos Verdes, Alicent Hightower continua marcada pelas consequências das decisões que tomou ao longo da vida. Seu maior foco passa a ser a proteção dos filhos, especialmente Helaena, em um cenário em que a família parece cada vez mais vulnerável. Ao mesmo tempo, novos personagens, como Ormund Hightower e Daeron, ampliam a influência da Casa Hightower e evidenciam que a guerra também é travada por meio da política, da religião e das relações familiares.

Ormund surge como um líder pragmático e severo, disposto a impor disciplina para consolidar seu poder. Sua relação com Daeron evidencia a tentativa de moldar um novo governante, alguém capaz de exercer autoridade sem hesitação. Paralelamente, Daemon continua seguindo seus próprios planos, acumulando recursos e alianças que podem alterar o equilíbrio de forças entre os dois lados do conflito.

Apesar da quantidade de acontecimentos importantes, o episódio também evidencia algumas fragilidades na narrativa e nos dá a sensação de um ritmo menos intenso do que o apresentado nos capítulos anteriores. Depois de uma sequência marcada por fortes emoções e grandes reviravoltas, a narrativa desacelera para reorganizar suas peças, mas nem sempre consegue fazê-lo de forma convincente. Algumas soluções parecem improvisadas, enquanto outras dependem de explicações posteriores que enfraquecem o impacto dramático.

Ainda assim, o episódio reafirma uma das principais qualidades de House of the Dragon: a recusa em apresentar heróis ou vilões absolutos. Alicent carrega parte da responsabilidade pela origem da guerra, seja pelas escolhas que fez, seja pela forma como criou seus filhos. Rhaenyra, por sua vez, também está longe de ser irrepreensível. Seu amadurecimento não elimina traços de orgulho e, muitas vezes, suas decisões são influenciadas pela convicção de que seu direito ao trono está acima de qualquer contestação. Em ambos os lados, o desejo de proteger a própria família acaba alimentando um ciclo contínuo de violência e vingança.

Ao final, o episódio deixa claro que a guerra já ultrapassou o ponto de retorno. As disputas pessoais deram lugar a um conflito que envolve todo o reino, enquanto cada decisão passa a produzir consequências cada vez maiores. Mais do que preparar o terreno para as batalhas futuras, a história reforça que o verdadeiro peso da coroa não está apenas em conquistá-la, mas em decidir até onde alguém está disposto a ir para mantê-la.

Nota: 8.5/10.0

Por: Felipe Tavares

Crítica | House of the Dragon – 3X03: Rhaenyra Triumphant

 * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

O peso da conquista

Depois da conquista do Trono de Ferro por Rhaenyra Targaryen, o terceiro episódio da temporada deixa claro que vencer uma guerra não significa saber governar. Em vez de investir em grandes batalhas, a série desacelera o ritmo para explorar as dificuldades de quem finalmente alcançou o poder e agora precisa lidar com suas consequências.

Recém-estabelecida como rainha, Rhaenyra descobre rapidamente que sua maior inimiga não é apenas a resistência dos antigos aliados dos Verdes, mas também a enorme responsabilidade de reconstruir Porto Real. Com os cofres praticamente vazios, a população enfrentando fome e parte da nobreza desconfiando de sua legitimidade, ela precisa tomar decisões cada vez mais delicadas para consolidar seu reinado.

O episódio acompanha a transformação gradual da personagem. A mulher que durante anos lutou para provar seu direito ao trono agora percebe que governar exige escolhas impopulares e, muitas vezes, moralmente questionáveis. Na tentativa de conquistar o apoio do povo, ela promove ações simbólicas e busca construir uma imagem de soberana justa, mas várias de suas decisões acabam criando novos conflitos políticos e pessoais. Aos poucos, Rhaenyra começa a compreender que a coroa pesa muito mais do que imaginava.

Esse processo também evidencia a diferença entre ela e Daemon. Enquanto ele enxerga a conquista como uma oportunidade para expandir o domínio dos Targaryen por meio da força e dos dragões, Rhaenyra demonstra receio de repetir os erros do passado e prefere estabilizar o reino antes de pensar em novas guerras. Essa divergência revela duas visões completamente distintas sobre o exercício do poder e amplia a tensão entre o casal.

Outro dos grandes acertos do episódio continua sendo a relação entre Rhaenyra e Alicent Hightower. Mesmo ocupando lados opostos da guerra, as duas mantêm uma conexão que foi construída ao longo de toda uma vida. Os encontros entre elas são marcados por respeito, ressentimento e uma intimidade que sobreviveu aos anos de rivalidade. Alicent aceita a nova posição da antiga amiga, mas permanece firme na defesa de sua família, enquanto antigas mágoas e diferenças sociais ajudam a explicar por que essa amizade acabou se transformando em um dos maiores conflitos do universo Game of Thrones.

A série também amplia o cenário político ao mostrar que a guerra está longe de terminar. Novas alianças são formadas, velhos juramentos são colocados à prova e diferentes personagens passam a disputar influência sobre a nova rainha. Ao mesmo tempo, Rhaenyra enfrenta dificuldades para controlar seus próprios aliados, percebe que nem toda promessa será cumprida e começa a entender que a ameaça pode surgir tanto de dentro quanto de fora de sua corte.

O episódio reforça ainda um dos temas centrais de House of the Dragon: a distância entre conquistar o poder e conseguir mantê-lo. A cada tentativa de fortalecer sua posição, Rhaenyra acaba abrindo novas frentes de conflito, seja com membros da nobreza, aliados insatisfeitos ou figuras importantes de seu próprio círculo político. Seu desejo de governar com equilíbrio entra constantemente em choque com a necessidade de demonstrar força em um mundo onde qualquer sinal de fraqueza pode ser fatal.

Embora funcione como um capítulo de transição, a narrativa está longe de parecer irrelevante. Ao priorizar as intrigas políticas, os dilemas morais e o desenvolvimento psicológico de seus personagens, o episódio prepara o terreno para acontecimentos muito maiores. O encerramento introduz uma nova peça no tabuleiro, capaz de alterar os rumos da disputa pelo Trono de Ferro e indicar que a guerra entre The Blacks e The Greens está apenas entrando em uma fase ainda mais complexa.

Mais do que um episódio sobre batalhas, trata-se de uma reflexão sobre liderança, legitimidade e o preço de exercer o poder, talvez por isso seja o episódio que mais me agradou e me causou identificação. A temporada demonstra que conquistar um reino pode ser apenas o primeiro passo; o verdadeiro desafio é conseguir governá-lo sem perder a própria identidade.

Nota: 9.3/10.0

Por: Felipe Tavares

terça-feira, 30 de junho de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X02: Queen’s Landing

* Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

Depois de uma estreia explosiva, a terceira temporada de House of the Dragon mostra que não pretende viver apenas de grandes batalhas e dragões. O segundo episódio desacelera o ritmo na medida certa para aprofundar seus personagens, sem renunciar à sensação constante de que a guerra está prestes a consumir Westeros por completo. O resultado é um episódio que confirma a boa fase da série e sugere que a produção finalmente encontrou o equilíbrio que faltou em boa parte da 2ª temporada.

Jacaerys Velaryon e Rhaenyra Targaryen - HBO

A narrativa começa exatamente onde o episódio anterior terminou, explorando as consequências devastadoras da Batalha da Goela. A morte de Jace deixa Rhaenyra completamente devastada e estabelece o tom emocional do episódio. O luto da rainha não é apenas uma tragédia pessoal: ele redefine sua postura diante da guerra. Pela primeira vez, a conquista do Trono de Ferro parece ter um preço alto demais, e essa dor influencia praticamente todas as decisões tomadas ao longo da história.

Enquanto #TeamBlack tenta reorganizar suas forças, diferentes frentes do conflito avançam simultaneamente. Daemon continua assumindo um papel decisivo na campanha militar, reunindo aliados e preparando o terreno para o ataque a Porto Real. Ao mesmo tempo, personagens como Corlys, Alyn, Addam e Rhaena ganham espaço suficiente para que suas trajetórias deixem de existir apenas em função dos protagonistas. A série continua expandindo seu universo sem perder de vista os dramas individuais que sustentam a narrativa.

Daemon Targaryen - HBO

Do outro lado, a situação do #TeamGreen se desmorona rapidamente. Alicent tenta preservar o pouco de estabilidade que ainda resta em Porto Real, enquanto Aegon e Larys buscam sobreviver longe da capital. Vale destacar o diálogo em que a Helaena, rainha consorte, dá ordem para ninguém atacar os dragões da forma mais fofa do mundo. É da personagem também um dos poucos momentos engraçados do episódio, quando ela revela à mãe o desejo de criar galinhas. Apesar do breve alívio cômico, o situação dos “verdes” é de absoluta tensão e o poder construído pelos Hightower começa a enfraquecer diante do avanço de Rhaenyra, mas a série evita transformar esse movimento em uma vitória triunfal. Cada conquista vem acompanhada de grandes perdas.

Alicent Hightower e Helaena Targaryen  - HBO

É justamente nesse ponto que HOTD demonstra uma de suas maiores qualidades. Por trás dos dragões, batalhas e disputas pelo trono existe uma tragédia profundamente humana e isso enriquece a obra de uma forma absurda. A guerra não traz apenas destruição e danos físicos: ela corrói relações, rompe antigos laços de confiança e transforma personagens que antes buscavam evitar o conflito em figuras dispostas a cruzar limites cada vez mais perigosos.

Essa abordagem fica evidente na relação entre Rhaenyra e Alicent, que continua sendo o verdadeiro coração emocional da série, como nós já havíamos falado na resenha do episódio anterior. Desde a primeira temporada, ambas parecem ser vítimas das circunstâncias, pressionadas por deveres políticos, expectativas familiares e pela violência iniciada por outros homens ao seu redor. O pacto estabelecido entre as duas para evitar um banho de sangue em Porto Real parecia representar uma última tentativa de preservar algo da amizade que elas compartilharam no passado. 

No entanto, a execução de Otto Hightower muda completamente esse cenário. Sem encontrar Aegon, Rhaenyra decide fazer justiça pelas próprias mãos e sacrifica qualquer possibilidade de reconciliação. Alicent, ao encontrar o corpo do pai, entende que não existe mais espaço para acordos ou concessões. O conflito deixa definitivamente de ser apenas político e passa a ser também pessoal, tornando ainda mais doloroso o inevitável o confronto entre as duas.

Se o roteiro impressiona pela construção dos personagens, a produção continua entregando um espetáculo visual digno da franquia. A direção alterna cenas intimistas com sequências grandiosas envolvendo dragões, enquanto a fotografia recupera parte do dinamismo e da energia que sentimos falta na temporada anterior. A impressão é de que a série abandonou o ritmo excessivamente contemplativo que marcou vários episódios da segunda temporada para abraçar uma narrativa mais direta, sem perder sua identidade.

Rhaenyra Targaryen - HBO

Ao final do episódio, a chegada de Rhaenyra ao Trono de Ferro representa uma vitória apenas parcial. Ela finalmente ocupa o lugar que considera seu por direito, mas chega até ele marcada pelo sangue, pela perda dos filhos e pela certeza de que a guerra ainda está longe do fim, afinal, conquistar o poder pode ser possível, mas ninguém sai ileso dessa jornada.

Nota: 9.0/10.0

Por: Felipe Tavares

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Crítica | House of the Dragon (3x01) recupera sua força em uma estreia grandiosa e emocionante

* Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

Imagens da "Batalha da Goela" - HBO

Depois de uma segunda temporada que dividiu opiniões por seu ritmo mais lento e pela constante sensação de que algo grandioso estava prestes a acontecer e que nunca se concretizava, “House of the Dragon” retorna em sua terceira temporada mostrando que a espera finalmente valeu a pena. E como valeu...

O primeiro episódio já começa com os dois pés na porta, ao representar a aguardada “Batalha da Goela”, dito por alguns estudiosos da “nerdolância” como um dos eventos mais importantes e devastadores da Dança dos Dragões, e o maior confronto naval da história de Westeros. A sequência é impressionante não apenas pela escala, mas pela forma como combina espetáculo visual e emoção. A frota de Corlys Velaryon (Steve Toussaint) enfrenta a Triarquia em um confronto marítimo que entrega tudo aquilo que muitos espectadores sentiram falta na temporada anterior: urgência, consequências e sensação real de perigo. É como se showrunner e sua equipe estivessem dizendo ao público que agora não há mais tempo para preparação. A guerra chegou, e chegou com força.

Também destaco o quão satisfatório foi assistir a morte de Sharako Lohar (Abigail Thorn), facilmente uma das personagens mais insuportáveis da série. Em contrapartida, no mesmo episódio, damos adeus a Jace (Harry Collett), o filho mais velho de Rhaenyra. Apesar dele ter um arco em age de forma intempestiva, leviana e até “mimada”, foi trágico acompanhar não só sua partida, como também a do seu dragão Vermax. Essa morte promete afetar profundamente a protagonista da série e os rumos da guerra. 

Outro destaque, esse foi negativo porque quase me fez ter um treco, foi a sucessão de trapalhadas que a Rhaena Targaryen, montada no Roubovelha (Sheepstealer), causou durante a batalha. Se não vai ajudar, também não atrapalha, né?

Jacaerys Velaryon - HBO

Já na questão técnica, HOTD alcança aqui seu ponto mais alto. A direção de fotografia, sob o comando de P.J. Dillon, é um trabalho lindíssimo, os efeitos visuais impressionam na maior parte do tempo e a edição de som também merece um destaque especial. Cada grito, cada explosão de fogo e cada morte carregam um peso que amplia a brutalidade do conflito. Os dragões continuam sendo um espetáculo à parte, mas o que realmente chama atenção é a forma como a direção consegue alternar entre a grandiosidade das batalhas e os momentos mais íntimos dos personagens. E é justamente nesses momentos que a série encontra sua maior força.

Se existe algo que HOTD faz melhor do que qualquer outra produção atual de fantasia, é explorar relações humanas corroídas pelo poder. Além disso, desde a primeira temporada, o verdadeiro coração da história sempre foi a relação entre Rhaenyra Targaryen (Emma D'Arcy) e Alicent Hightower (Olivia Cooke). E já no primeiro episódio, a série dá sinais de que essa relação caminha para ocupar novamente um papel central na narrativa da terceira temporada. Ainda assim, convém manter a cautela, já que a série carrega um histórico frustrante de criar expectativas que acabam não se concretizando.

Alicent Hightower e Rhaenyra Targaryen  - HBO

Por fim, o que fica após o primeiro episódio, é a sensação de que HOTD encontrou um ponto de equilíbrio que até então parecia ter se perdido. A série continua sendo um espetáculo visual gigantesco, mas agora conseguiu combinar em cerca de 60 minutos de exibição, uma batalha épica com personagens mais interessantes, conflitos mais humanos e diálogos carregados de peso dramático.

Talvez eles nunca alcancem o mesmo impacto cultural de “Game of Thrones”, mas, pela primeira vez desde a estreia, “House of the Dragon” parece tão grandiosa quanto sua antecessora. Eu assisti ao episódio com o meu namorado em pleno domingo à noite, e o que vimos em tela foi avassalador, de tirar o fôlego (e o sono!). Quase um gatilho pré-segunda-feira para dois ansiosos como nós! E se a temporada mantiver o nível apresentado nesse 3x01, estaremos diante não apenas da melhor fase da série até agora, mas também de uma das melhores produções televisivas do ano. E o mais interessante? É a sensação de que o melhor ainda está por vir...

Nota: 9,2 / 10,0

Por: Felipe Tavares

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