* Atenção, essa resenha critica contém spoiler!
E quando a guerra deixa de
pertencer aos homens...?
Existe uma mudança silenciosa
acontecendo na terceira temporada de House of the Dragon. Durante boa
parte da série, a Dança dos Dragões foi apresentada como um conflito movido
pelas escolhas de pessoas poderosas, como reis, rainhas, cavaleiros e lordes,
que antes eram capazes de alterar o rumo da história através da própria
vontade. O sexto episódio, entretanto, propõe uma leitura diferente. Pela
primeira vez, a sensação dominante não é a de que os personagens conduzem a
guerra, mas de que a guerra passou a conduzir os personagens.
É uma inversão sutil, mas
decisiva. Quase todos os núcleos do capítulo giram em torno de figuras que
descobrem, cedo ou tarde, que perderam o controle sobre a própria trajetória.
Uns ainda insistem em lutar contra esse destino; outros simplesmente aprendem a
sobreviver dentro dele. Esse talvez seja o maior mérito do episódio: encontrar
um eixo temático capaz de unir histórias aparentemente desconectadas.
![]() |
| Imagem: HBO |
Ao mesmo tempo, porém, o capítulo também escancara um problema que acompanha toda a temporada. A série continua super competente na construção de atmosfera, personagens e tensão política, mas demonstra dificuldade para transformar grandes acontecimentos em experiências emocionalmente devastadoras. E nenhuma cena simboliza melhor essa contradição do que a despedida de Sir Criston Cole.
Desde sua primeira aparição na
série, Criston ocupou um lugar curioso dentro da narrativa. Durante muito tempo
foi reduzido ao papel de antagonista impulsivo, movido pelo ressentimento e
pela devoção cega à trupe da Alicent. Aos poucos, porém, a terceira temporada
começou a desmontar essa imagem. Depois das derrotas sucessivas e da escalada
da guerra, o personagem finalmente passou a enxergar aquilo que o público já
percebia havia algum tempo: sua importância diminuía na mesma proporção em que
os dragões assumiam o protagonismo do conflito.
As conversas com Gwayne Hightower
nos episódios anteriores revelavam um homem profundamente cansado. Não apenas
da guerra, mas do papel que desempenhou durante toda a vida. Criston compreende
que sempre foi uma ferramenta utilizada por pessoas muito mais poderosas do que
ele. Seus juramentos, sua lealdade e sua reputação serviram aos interesses da
nobreza enquanto foram convenientes. Agora, diante de um conflito dominado por
monstros capazes de destruir exércitos inteiros em poucos minutos, o maior
guerreiro dos Sete Reinos descobre que sua habilidade pouco significa.
A morte de Criston Cole também preserva aquilo que sempre o definiu: sua recusa em aceitar passivamente o próprio destino. Antes de cair sob uma chuva de flechas, ele ainda tenta negociar pela vida de seus soldados. Quando percebe que não há acordo possível, escolhe morrer lutando. O problema começa logo depois...
Em menos de dez minutos, House of the Dragon elimina um personagem presente desde o primeiro episódio da série e simplesmente segue adiante como se nada tivesse acontecido. Alicent não reage. Gwayne não reage. Aegon não reage. Nem mesmo o episódio parece interessado em refletir sobre a ausência daquele que durante anos ocupou posição central dentro do conflito. Essa talvez seja a decisão mais frustrante do capítulo.
![]() |
| Imagem: HBO |
Não porque Criston Cole merecesse uma morte heroica, já que sua trajetória jamais nos levou para essa direção, mas porque a série vinha preparando cuidadosamente esse encerramento. Seus diálogos recentes revelavam um homem que finalmente compreendia o vazio produzido por décadas de obediência. Quando afirma desejar morrer "a serviço de si mesmo", Criston encontra uma humanidade que durante muito tempo permaneceu escondida sob sua arrogância. Ao ignorar completamente as consequências emocionais dessa perda, o roteiro enfraquece justamente aquilo que havia construído com tanta eficiência.
A impressão que fica é que House of the Dragon continua tratando alguns acontecimentos como simples pontos de passagem entre uma grande batalha e outra. A morte de Criston representa um marco importante dentro da Dança dos Dragões, mas recebe menos atenção do que diversas conversas políticas espalhadas pelo restante do episódio. É curioso porque, tecnicamente, a sequência funciona muito bem. Dramaticamente, porém, ela termina antes de produzir todas as consequências que poderia gerar.Esse mesmo sentimento acompanha praticamente todo o restante do capítulo.
![]() |
| Imagem: HBO |
Após conquistar Porto Real,
Rhaenyra imaginava que finalmente teria condições de exercer o poder pelo qual
lutou durante tantos anos. Em vez disso, encontra um reino economicamente
destruído. A guerra deixa de existir apenas nos campos de batalha e invade a
administração cotidiana. Faltam recursos, aumenta a criminalidade, cresce a
insatisfação popular e o Trono de Ferro volta a ferir fisicamente a mulher que
sempre acreditou ser sua legítima ocupante.
Mais interessante ainda é
perceber como essa transformação acontece sem que Rhaenyra praticamente
perceba. Ao longo do episódio, suas decisões tornam-se cada vez mais
pragmáticas. Assassinatos passam a ser considerados alternativas políticas
aceitáveis. Alicent deixa de ser apenas uma antiga amiga para transformar-se em
uma possível peça de espionagem. A preocupação com princípios morais cede
espaço à necessidade de vencer uma guerra que parece escapar diariamente de seu
controle. É nesse momento que o tema central do episódio se fortalece. Rhaenyra
conquistou o Trono, mas perdeu o controle do reino. Essa perda de controle não
pertence apenas a Rhaenyra. Ela atravessa praticamente todos os personagens
centrais do episódio e é justamente essa percepção que dá coesão a uma
narrativa “aparentemente” fragmentada.
Alicent talvez seja o exemplo
mais evidente dessa transformação. Durante duas temporadas ela foi uma das
principais agentes da guerra, movendo peças, tomando decisões e tentando
preservar sua família. Agora, confinada em Porto Real, torna-se quase uma
espectadora da própria história. Sua importância política diminui drasticamente
e, pela primeira vez, ela aceita negociar não para conquistar poder, mas
simplesmente para preservar aquilo que ainda lhe resta.
![]() |
| Imagem: HBO |
Enquanto isso, Harrenhal continua funcionando como um espaço quase sobrenatural dentro da série, o que na minha opinião é de uma chatice sem tamanho e compromete o ritmo do episódio. Se Porto Real representa o desgaste do poder político, Harrenhal simboliza o poder do destino. Nada ali parece acontecer de maneira completamente racional. A aproximação entre Aemond e Alys Rivers reforça exatamente essa atmosfera. Mais do que um romance, o relacionamento dos dois parece guiado por forças antigas que ultrapassam a própria guerra. E eu não poderia me importar menos...
O episódio também dedica tempo
significativo aos Hightower. A relação entre Ormund e Daeron revela duas formas
distintas de enxergar o poder. Ormund compreende a guerra como uma disputa de
símbolos e percebe que Daeron pode servir como bandeira capaz de mobilizar
parte de Westeros. Já Daeron demonstra enorme desconforto diante dessa
responsabilidade. Sua confissão de que jamais desejou ser rei funciona como um
raro momento de vulnerabilidade em meio a uma temporada dominada por
personagens convencidos de que nasceram para governar.
![]() |
| Imagem: HBO |
Faltando apenas dois episódios
para o encerramento da temporada, House of the Dragon continua abrindo
novas linhas narrativas em vez de concentrar seus esforços naquelas que já
vinham sendo desenvolvidas. Existe uma sensação permanente de preparação. Quase
todas as cenas parecem anunciar acontecimentos futuros em vez de extrair
consequências daqueles que acabaram de ocorrer.
Essa característica acompanha boa
parte da terceira temporada. Depois do terceiro episódio, a série reduziu
significativamente o ritmo dos acontecimentos para privilegiar conversas
políticas, reposicionamentos estratégicos e mudanças graduais nas relações
entre os personagens. Em teoria, trata-se de uma escolha coerente com a
proposta de uma guerra longa e desgastante. Na prática, porém, ela produz um
efeito colateral importante: diversos acontecimentos deixam de possuir o
impacto emocional que mereciam porque o roteiro parece imediatamente
interessado em preparar o próximo movimento do tabuleiro.A morte de Criston
Cole permanece como o exemplo mais evidente desse problema.
Tecnicamente, entretanto, é
difícil encontrar grandes defeitos na produção do episódio. A direção de Loni
Peristere demonstrou um controle e um domínio absurdo da narrativa. A
fotografia continua sendo um dos maiores trunfos da série, a trilha sonora
abandona temas grandiosos e de forma acertada aposta em temas mais
melancólicos, mostrando uma compreensão louvável de que a história já não é
mais focado nas conquistas, mas sim nas perdas. A montagem também merece
destaque, mesmo com problemas na estrutura narrativa, a costura e a construção permanecem
extremamente eficientes.
Acima de tudo, gostaria de
destacar as atuações dessa temporada. O elenco entregando um trabalho de
altíssimo nível. Emma D'Arcy demonstra com precisão a lenta deterioração moral
de Rhaenyra, cuja autoridade cresce enquanto sua humanidade parece diminuir.
Olivia Cooke constrói sua Alicent quase sempre através do olhar, transmitindo
culpa, impotência e resignação sem necessidade de grandes discursos. Tom
Glynn-Carney talvez continue sendo a maior surpresa da temporada ao transformar
Aegon II em um personagem muito mais complexo do que parecia nas temporadas
anteriores. Já Fabien Frankel encerra sua trajetória oferecendo aquela que
provavelmente é sua melhor atuação na série, tornando Criston Cole muito mais
trágico do que heroico.
![]() |
| Imagem: HBO |
No fim das contas, o sexto
episódio resume perfeitamente as qualidades e os defeitos da terceira temporada
de House of the Dragon. Poucas séries da televisão contemporânea
conseguem combinar direção, fotografia, trilha sonora, direção de arte e
atuações com tamanha competência. Ao mesmo tempo, poucas parecem tão relutantes
em permitir que seus momentos mais importantes permaneçam tempo suficiente na
tela para produzir todo o seu potencial impacto emocional.
Mais do que um episódio sobre
batalhas ou conspirações, este é um capítulo sobre personagens que descobrem,
cada um à sua maneira, que já não controlam o próprio destino. Criston aceita
morrer em uma guerra que deixou de pertencer aos homens. Rhaenyra percebe que
conquistar um trono não significa conseguir governá-lo. Alicent compreende que
sua influência desapareceu junto com sua liberdade, enquanto Aemond deposita
seu futuro nas mãos de forças que sequer consegue compreender.
É justamente essa ideia que transforma o episódio em algo maior do que a soma de seus acontecimentos. Pela primeira vez nesta temporada, a narrativa deixa de parecer apenas uma disputa entre dois lados e passa a assumir a forma de uma engrenagem histórica impossível de deter. Todos ainda acreditam estar fazendo escolhas. O episódio, porém, sugere algo muito mais inquietante: talvez a guerra já tenha escolhido o destino de todos eles há muito tempo!
Nota: 7.9/10.0
Por: Felipe Tavares






Nenhum comentário:
Postar um comentário