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terça-feira, 28 de julho de 2026

Crítica | House of the Dragon – 3X06: Faceless Men

  * Atenção, essa resenha critica contém spoiler!

E quando a guerra deixa de pertencer aos homens...?

Existe uma mudança silenciosa acontecendo na terceira temporada de House of the Dragon. Durante boa parte da série, a Dança dos Dragões foi apresentada como um conflito movido pelas escolhas de pessoas poderosas, como reis, rainhas, cavaleiros e lordes, que antes eram capazes de alterar o rumo da história através da própria vontade. O sexto episódio, entretanto, propõe uma leitura diferente. Pela primeira vez, a sensação dominante não é a de que os personagens conduzem a guerra, mas de que a guerra passou a conduzir os personagens.

É uma inversão sutil, mas decisiva. Quase todos os núcleos do capítulo giram em torno de figuras que descobrem, cedo ou tarde, que perderam o controle sobre a própria trajetória. Uns ainda insistem em lutar contra esse destino; outros simplesmente aprendem a sobreviver dentro dele. Esse talvez seja o maior mérito do episódio: encontrar um eixo temático capaz de unir histórias aparentemente desconectadas.

Imagem: HBO

Ao mesmo tempo, porém, o capítulo também escancara um problema que acompanha toda a temporada. A série continua super competente na construção de atmosfera, personagens e tensão política, mas demonstra dificuldade para transformar grandes acontecimentos em experiências emocionalmente devastadoras. E nenhuma cena simboliza melhor essa contradição do que a despedida de Sir Criston Cole.

Desde sua primeira aparição na série, Criston ocupou um lugar curioso dentro da narrativa. Durante muito tempo foi reduzido ao papel de antagonista impulsivo, movido pelo ressentimento e pela devoção cega à trupe da Alicent. Aos poucos, porém, a terceira temporada começou a desmontar essa imagem. Depois das derrotas sucessivas e da escalada da guerra, o personagem finalmente passou a enxergar aquilo que o público já percebia havia algum tempo: sua importância diminuía na mesma proporção em que os dragões assumiam o protagonismo do conflito.

As conversas com Gwayne Hightower nos episódios anteriores revelavam um homem profundamente cansado. Não apenas da guerra, mas do papel que desempenhou durante toda a vida. Criston compreende que sempre foi uma ferramenta utilizada por pessoas muito mais poderosas do que ele. Seus juramentos, sua lealdade e sua reputação serviram aos interesses da nobreza enquanto foram convenientes. Agora, diante de um conflito dominado por monstros capazes de destruir exércitos inteiros em poucos minutos, o maior guerreiro dos Sete Reinos descobre que sua habilidade pouco significa.

A morte de Criston Cole também preserva aquilo que sempre o definiu: sua recusa em aceitar passivamente o próprio destino. Antes de cair sob uma chuva de flechas, ele ainda tenta negociar pela vida de seus soldados. Quando percebe que não há acordo possível, escolhe morrer lutando. O problema começa logo depois...

Em menos de dez minutos, House of the Dragon elimina um personagem presente desde o primeiro episódio da série e simplesmente segue adiante como se nada tivesse acontecido. Alicent não reage. Gwayne não reage. Aegon não reage. Nem mesmo o episódio parece interessado em refletir sobre a ausência daquele que durante anos ocupou posição central dentro do conflito. Essa talvez seja a decisão mais frustrante do capítulo.

Imagem: HBO

Não porque Criston Cole merecesse uma morte heroica, já que sua trajetória jamais nos levou para essa direção, mas porque a série vinha preparando cuidadosamente esse encerramento. Seus diálogos recentes revelavam um homem que finalmente compreendia o vazio produzido por décadas de obediência. Quando afirma desejar morrer "a serviço de si mesmo", Criston encontra uma humanidade que durante muito tempo permaneceu escondida sob sua arrogância. Ao ignorar completamente as consequências emocionais dessa perda, o roteiro enfraquece justamente aquilo que havia construído com tanta eficiência.

A impressão que fica é que House of the Dragon continua tratando alguns acontecimentos como simples pontos de passagem entre uma grande batalha e outra. A morte de Criston representa um marco importante dentro da Dança dos Dragões, mas recebe menos atenção do que diversas conversas políticas espalhadas pelo restante do episódio. É curioso porque, tecnicamente, a sequência funciona muito bem. Dramaticamente, porém, ela termina antes de produzir todas as consequências que poderia gerar.Esse mesmo sentimento acompanha praticamente todo o restante do capítulo.

Imagem: HBO

Após conquistar Porto Real, Rhaenyra imaginava que finalmente teria condições de exercer o poder pelo qual lutou durante tantos anos. Em vez disso, encontra um reino economicamente destruído. A guerra deixa de existir apenas nos campos de batalha e invade a administração cotidiana. Faltam recursos, aumenta a criminalidade, cresce a insatisfação popular e o Trono de Ferro volta a ferir fisicamente a mulher que sempre acreditou ser sua legítima ocupante.

Mais interessante ainda é perceber como essa transformação acontece sem que Rhaenyra praticamente perceba. Ao longo do episódio, suas decisões tornam-se cada vez mais pragmáticas. Assassinatos passam a ser considerados alternativas políticas aceitáveis. Alicent deixa de ser apenas uma antiga amiga para transformar-se em uma possível peça de espionagem. A preocupação com princípios morais cede espaço à necessidade de vencer uma guerra que parece escapar diariamente de seu controle. É nesse momento que o tema central do episódio se fortalece. Rhaenyra conquistou o Trono, mas perdeu o controle do reino. Essa perda de controle não pertence apenas a Rhaenyra. Ela atravessa praticamente todos os personagens centrais do episódio e é justamente essa percepção que dá coesão a uma narrativa “aparentemente” fragmentada.

Alicent talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação. Durante duas temporadas ela foi uma das principais agentes da guerra, movendo peças, tomando decisões e tentando preservar sua família. Agora, confinada em Porto Real, torna-se quase uma espectadora da própria história. Sua importância política diminui drasticamente e, pela primeira vez, ela aceita negociar não para conquistar poder, mas simplesmente para preservar aquilo que ainda lhe resta.

Imagem: HBO

Enquanto isso, Harrenhal continua funcionando como um espaço quase sobrenatural dentro da série, o que na minha opinião é de uma chatice sem tamanho e compromete o ritmo do episódio. Se Porto Real representa o desgaste do poder político, Harrenhal simboliza o poder do destino. Nada ali parece acontecer de maneira completamente racional. A aproximação entre Aemond e Alys Rivers reforça exatamente essa atmosfera. Mais do que um romance, o relacionamento dos dois parece guiado por forças antigas que ultrapassam a própria guerra. E eu não poderia me importar menos...

O episódio também dedica tempo significativo aos Hightower. A relação entre Ormund e Daeron revela duas formas distintas de enxergar o poder. Ormund compreende a guerra como uma disputa de símbolos e percebe que Daeron pode servir como bandeira capaz de mobilizar parte de Westeros. Já Daeron demonstra enorme desconforto diante dessa responsabilidade. Sua confissão de que jamais desejou ser rei funciona como um raro momento de vulnerabilidade em meio a uma temporada dominada por personagens convencidos de que nasceram para governar.

Imagem: HBO

Faltando apenas dois episódios para o encerramento da temporada, House of the Dragon continua abrindo novas linhas narrativas em vez de concentrar seus esforços naquelas que já vinham sendo desenvolvidas. Existe uma sensação permanente de preparação. Quase todas as cenas parecem anunciar acontecimentos futuros em vez de extrair consequências daqueles que acabaram de ocorrer.

Essa característica acompanha boa parte da terceira temporada. Depois do terceiro episódio, a série reduziu significativamente o ritmo dos acontecimentos para privilegiar conversas políticas, reposicionamentos estratégicos e mudanças graduais nas relações entre os personagens. Em teoria, trata-se de uma escolha coerente com a proposta de uma guerra longa e desgastante. Na prática, porém, ela produz um efeito colateral importante: diversos acontecimentos deixam de possuir o impacto emocional que mereciam porque o roteiro parece imediatamente interessado em preparar o próximo movimento do tabuleiro.A morte de Criston Cole permanece como o exemplo mais evidente desse problema.

Tecnicamente, entretanto, é difícil encontrar grandes defeitos na produção do episódio. A direção de Loni Peristere demonstrou um controle e um domínio absurdo da narrativa. A fotografia continua sendo um dos maiores trunfos da série, a trilha sonora abandona temas grandiosos e de forma acertada aposta em temas mais melancólicos, mostrando uma compreensão louvável de que a história já não é mais focado nas conquistas, mas sim nas perdas. A montagem também merece destaque, mesmo com problemas na estrutura narrativa, a costura e a construção permanecem extremamente eficientes.

Acima de tudo, gostaria de destacar as atuações dessa temporada. O elenco entregando um trabalho de altíssimo nível. Emma D'Arcy demonstra com precisão a lenta deterioração moral de Rhaenyra, cuja autoridade cresce enquanto sua humanidade parece diminuir. Olivia Cooke constrói sua Alicent quase sempre através do olhar, transmitindo culpa, impotência e resignação sem necessidade de grandes discursos. Tom Glynn-Carney talvez continue sendo a maior surpresa da temporada ao transformar Aegon II em um personagem muito mais complexo do que parecia nas temporadas anteriores. Já Fabien Frankel encerra sua trajetória oferecendo aquela que provavelmente é sua melhor atuação na série, tornando Criston Cole muito mais trágico do que heroico.

Imagem: HBO

No fim das contas, o sexto episódio resume perfeitamente as qualidades e os defeitos da terceira temporada de House of the Dragon. Poucas séries da televisão contemporânea conseguem combinar direção, fotografia, trilha sonora, direção de arte e atuações com tamanha competência. Ao mesmo tempo, poucas parecem tão relutantes em permitir que seus momentos mais importantes permaneçam tempo suficiente na tela para produzir todo o seu potencial impacto emocional.

Mais do que um episódio sobre batalhas ou conspirações, este é um capítulo sobre personagens que descobrem, cada um à sua maneira, que já não controlam o próprio destino. Criston aceita morrer em uma guerra que deixou de pertencer aos homens. Rhaenyra percebe que conquistar um trono não significa conseguir governá-lo. Alicent compreende que sua influência desapareceu junto com sua liberdade, enquanto Aemond deposita seu futuro nas mãos de forças que sequer consegue compreender.

É justamente essa ideia que transforma o episódio em algo maior do que a soma de seus acontecimentos. Pela primeira vez nesta temporada, a narrativa deixa de parecer apenas uma disputa entre dois lados e passa a assumir a forma de uma engrenagem histórica impossível de deter. Todos ainda acreditam estar fazendo escolhas. O episódio, porém, sugere algo muito mais inquietante: talvez a guerra já tenha escolhido o destino de todos eles há muito tempo!

Nota: 7.9/10.0

Por: Felipe Tavares

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